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Coisas que não existem mais

Luis Fernando Verissimo

Cigarreira, por exemplo. Não existe mais. Nunca fumei, mas lembro que acompanhava, fascinado, o ritual dos fumantes que traziam seus cigarros naqueles estojos de metal, dourados ou prateados. Só havia cigarreiras para homens. Mulher fumando era uma raridade, e fumando em público um escândalo, mas mesmo que fumassem como homens as cigarreiras não eram para elas. Eram coisas sólidas, másculas, coisas para trazer no bolso interno do paletó, como uma arma ou um documento importante, inimagináveis entre as frivolidades de uma bolsa feminina. Oferecer o cigarro de uma cigarreira a uma mulher era um ato, ao mesmo tempo, de compreensão (não a condeno por fumar, mas entendo que você não pode andar com cigarros na bolsa), de sedução (sim, sou um homem de cigarreira, e você sabe o que isso significa) e de cumplicidade (estou lhe abrindo um dos meus recessos, você está se servindo da minha intimidade, talvez até lendo a inscrição no interior, mas é só um vislumbre, o máximo permitido a alguém do seu gênero). E depois da cigarreira fechada com um estalo, o isqueiro tirado de outro bolso e oferecido aceso, numa rápida coreografia solícita, pois um homem de cigarreira geralmente também era um homem de isqueiro infalível. Parte do ritual era bater com a ponta do cigarro na superfície da cigarreira. Para o fumo baixar e encher a extremidade do cigarro, que sempre ficava meio vazia, era isso? Por alguma razão, sempre achei o gesto de bater com a ponta do cigarro o gesto definidor de gente grande. Você seria adulto quando batesse com a ponta de um cigarro antes de levá-lo a boca, e se batesse o cigarro na tampa de uma cigarreira prateada ou dourada, seria um adulto especial. Eu treinava para esse dia batendo com a ponta de cigarros de chocolate. Lembra cigarro de chocolate? Mas nunca fiz a transição do chocolate para o fumo. Talvez já prevendo que os cigarros me fariam mal (naquele tempo ninguém ainda concluíra que sugar fumaça não podia fazer bem), talvez porque não tivesse muito entusiasmo em ser adulto.

Rede de cabelo para homem. Também não existe mais. Usavam para dormir e para jogar futebol. Você vê as fotografias de times de futebol daquele tempo e sempre tem uns três ou quatro com uma rede ― ou meia ― na cabeça, para manter os cabelos no lugar. Que tempo era esse? Acho que até o fim dos anos 50 homem ainda usava rede na cama e no campo. Hoje, no campo se não na cama, a cabeça raspada substituiu a rede e a escolha é entre cabelos esvoaçantes ou cabelo nenhum. Não há qualquer relação conhecida entre o uso da rede de cabelo e o tipo de futebol que se jogava então e não se joga mais. E que fim levou chapéu de mulher com véu? Se ainda existe eu não tenho visto. Os chapéus vinham com véus que cobriam o rosto da mulher. A cobertura era apenas simbólica, pois os véus eram diáfanos e o rosto da mulher ficava reconhecível, mas o que simbolizava a falsa máscara? Talvez a moda viesse do fim da era vitoriana e fosse uma espécie de antídoto para o inevitável relaxamento de costumes que já começara: a mulher estava a meio caminho entre repressão e a liberação mas ainda obrigada a simular recato, e a não ser identificada na rua. No véu estava implícito o anonimato, e a distância. Atrás do seu véu a mulher continuava sendo um ser enclausurado, olhando o mundo - simbolicamente - através de treliças conventuais, não importa o que estivesse fazendo por baixo da mesa. Já que para proteger do sol é que não era. Naquele tempo levantar o véu de uma mulher para beijá-la equivaleria a um descerramento, a uma cortina de primeiro ato, mesmo que ela estivesse vestindo só o chapéu. Os véus davam um ar de mistério lúbrico às mulheres. O que jamais se poderia dizer das redes de cabelo para homens.

E mata-borrão? Já devemos estar na segunda geração humana que não sabe o que é mata-borrão. Que nunca viu um mata-borrão, salvo em filme de época. Como explicar o prático objeto em forma de semicírculo com uma maçaneta em cima se, além de tudo, ele tinha um nome errado, um nome que desvirtuava sua função? Em vez de matar, o mata-borrão previnia o borrão, era um evita-borrão, portanto um difamado pelo próprio nome. A pronta aplicação da superfície porosa do papel do mata-borrão que absorvia o excesso de tinta molhada impedia que a tinta se espalhasse, ou fosse acidentalmente borrada e... Enfim, é um pouco difícil de explicar para quem não sabe nem o que é tinta molhada.

Não existem mais cigarreiras ou cigarros de chocolate, nem jogadores de futebol com rede de cabelo ou mulheres com véus e os mata-borrões não encontraram outra função no mundo - ao contrário, por exemplo, dos tinteiros, que dão bons vasinhos, ou dos dinossauros, que foram para o cinema - e o tempo continua fazendo das suas, passando desse jeito. Agora só falta eu ficar adulto de repente.


Domingo, 23 de fevereiro de 2003.



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